segunda-feira, 20 de julho de 2015

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [37]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [36]

Roman Grau - Silent Pain Part 3: Silent Pain

Durante a semana, à noite, devorava o corpo de Madalena; insaciável na cama e sempre deliciada com os poemas e a atenção que recebia nos dias em que ficava para jantar. Aos fins-de-semana, passeava com Inês nos braços, por monumentos ou lojas de shopping, onde se perdia loucamente na boca e no corpo da sua mãe. Havia prendas e surpresas. Este homem fazia agora falta na vida de cada uma. Não era uma rotina, era uma necessidade.

Madalena, divorciada, sentava-se na sala, a olhar para o relógio de parede que já não lhe mexia como da primeira vez que o comprou e relembrava-se da razão de querer falar com ele.
-- "Estou farta de ficar em segundo plano! Como segunda opção!". Abri a porta e pedi-lhe para se sentar. Olhei-o nos olhos, séria, e ele não reagiu. É agora!
-- Queria falar contigo sobre nós. Estou farta de ser usada! Farta de ser uma segunda opção! Se queres continuar a estar comigo... Vais ter de a deixar!
-- Madalena, não estragues isto. -- disse-me, tentando manipular a minha opinião e o meu amor por ele. Percebi nesse instante, só pela maneira como me falava e as palavras que usara, que eu seria sempre a sua segunda opção, mas o corpo e os olhos dele diziam algo totalmente diferente e eu não conseguia deixar de o desejar, deixar de me imaginar com ele, com o seu charme, a sua inteligência, o seu sentido de humor e, obviamente, o sexo!
-- Vais ter de decidir! Não te quero dividir com ela! É minha patroa! Será que não posso, por um único e mísero momento da minha vida ser amada com prazer? Com desejo? Sem ter de aceitar partilhar as mãos de quem amo no corpo de outra qualquer? Não tenho direito a ser feliz? Escolhe! Ou eu ou ela!
À porta da cozinha, muito calada e de ouvido bem aberto, cuscava a filha, que sentia no estômago o sofrimento da mãe. As palavras ressoavam na sua cabeça, comparando a sua própria vida com as infelicidades amorosas da sua progenitora mal amada, causando-lhe um mal estar no estômago e um nó na garganta.
-- Falamos melhor sobre isto amanhã. O dia de hoje foi horrível e estás stressada. Precisas de descansar. Telefono-te assim que chegar a casa, está bem? -- aproximou-se de mim para se despedir com um beijo mas virei-lhe a cara. -- Madalena? -- pediu a minha atenção. Olhei para ele furiosa, numa pilha de nervos tal que estava capaz de o matar!
A mãe, com a cara já anunciando um choro, olhou para a porta da cozinha, onde ainda pôde ver a sua filha esconder-se com uma certa preocupação. Os passos do namorado caminharam em direcção à porta e saiu sozinho, deixando-a a olhar para a sua silhueta desaparecer no vidro. Sentou-se no sofá a olhar-se através da televisão, num reflexo distorcido e solitário, rasgando memórias que lhe eram tão doces. O tempo parou dentro daquela casa.
-- MÃE!!! -- gritou a filha numa aflição profunda e rasgada. -- Mãe! A panela pegou fogo mãe!
Madalena levantou a cabeça com os olhos em lágrimas e viu a aflição estampada na cara da filha enquanto fugia de uma cozinha consumida pela luz. Foi então, que quando sentiu a força das chamas tocar-lhe o corpo e queimar-lhe a cara, que se apercebeu da pobre vida que sempre teve, sem grande sorte, sem grandes amores, sem grandes oportunidades, sem grandes sorrisos. Desejou que o Diabo subi-se à terra para a levar ao reino da Luxuria, mas até nesse desejo infantil ela tinha azar. Teria de ser ela a descer...

Se eles respiram, vivem.
Se eles vivem, sentem.

Se eles sentem, amam.
Se eles amam, têm consciência.
Se têm consciência têm uma alma.
- Anthony Douglas Williams



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